Entrevista a Carlos Drummond de Andrade

Entrevistadora: (“Quero-me Casar”)

Quero me casar
Na noite na rua
No mar ou no céu
Quero me casar.

Procuro uma noiva
Loura morena
Preta ou azul
Uma noiva verde
Uma noiva no ar
Como um passarinho.

Depressa, que o amor
Não pode esperar!

Muito bom dia, caro público. Estamos aqui em directo da INFO TV, no programa “Grandes Poetas”. Hoje, no nosso programa, vamos entrevistar o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Este poeta nasceu dia 31 de Outubro de 1902 em Itabira, em Minas Gerais. É poeta, contista e cronista.

Peço então um grande aplauso para um grande poeta, Carlos Drummond de Andrade!

Carlos Drummond de Andrade: Muito obrigado, a todos! É com muito prazer que estou aqui presente!

E.: Os nossos espectadores gostariam de conhecer um pouco da sua vida e obra enquanto poeta/escritor… Queríamos saber ao certo, onde estudou?

C.D.A.: Ora bem… Estudei em Belo Horizonte e Nova Friburgo, no colégio Anchieta, formando-me em farmácia, com alguns colegas.

E.: De entre esses colegas, qual era o seu maior amigo?

C.D.A.: Não inferiorizando os outros, sem dúvida era e é Emílio Moura, que fundou comigo “A Revista”, para divulgar o Modernismo no Brasil.

E.: Temos agora uma grande surpresa para si! Um grande aplauso para Emílio Moura!

Emílio Moura: Oh, Meu Deus! Há tanto tempo… estou muito feliz por te ver outra vez… Vim de propósito até aqui para nos reencontrarmos… Meu velho e adorado amigo!

E.: Onde se conheceram?

E.M.: Eu também estudei em Belo Horizonte, no colégio Anchieta, formando-me também em farmácia, como o Carlos…

E.: Porque razões formaram “A Revista”?

E.M.: Fundámos “A Revista” porque não havia nenhuma publicação que divulgasse o modernismo no Brasil, e achávamos que era uma corrente da literatura, pintura e escultura muito interessante, mas também importante.

E.: Quais são os temas abordados nas suas obras?

C.D.A.: O Indivíduo, a Terra Natal, a Família, os Amigos, o Amor, a Existência, entre outros…

E.: Construíram várias esculturas em sua homenagem como a Estátua dos “Dois Poetas” em Porto Alegre, “O Pensador”, que se localiza na Praia de Copa Cabana, no Rio de Janeiro, e um Memorial em Itabira. Emílio, de todas estas homenagens, qual é que acha que se identifica mais com o Carlos?

E.M.: Na minha opinião todas elas se identificam com o Carlos. Retratam características da vida e obra de Carlos enquanto poeta.

E.: É muito chegado à família de Carlos?

E.M.: A família de Carlos não é muito grande. Tem uma filha que também é escritora, Maria Julieta Drummond de Andrade, excelente escritora, e a sua mulher é uma pessoa muito gentil e honesta. Somos muito chegados, pois eu e o Carlos somos amigos de longa data…

E.: Carlos, já sabemos que estudou em Belo Horizonte e que se formou em farmácia. Depois fundou “A Revista” juntamente com Emílio Moura e outros colegas. Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro onde assumiu o cargo de chefe de gabinete, Ministro de Educação e Saúde. Também colaborou como jornalista literário principalmente no Correio da Manhã. O que sucedeu depois disto?

C.D.A.: Em 1950 entreguei-me na íntegra à produção literária, desenvolvendo os temas que já mencionámos e produzi algumas obras poéticas tais como: “Sentimento do Mundo”, “Rosa do Povo”, “Lição de Coisas”, entre outros…

E.: Começou a escrever muito tarde?

C.D.A.: Não… Muito antes, pelo contrário, comecei a escrever cedo e ainda escrevo!

E.M.: Queria agora pedir um pouco de atenção para a compreensão de um poema que vou passar a recitar: (“O Constante Diálogo”)

Há tantos diálogos
Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado
Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro
Escolhe teu diálogo e
tua melhor palavra ou
teu melhor silêncio.

Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

C.D.A.: Muito obrigado, Emílio… Sempre és e continuarás a ser um grande amigo meu, apesar da nossa distância! Obrigado! Bem, meu caro amigo, devo-te dizer que também trouxe um poema que tem muito a ver connosco… (“Para Sempre”)

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga

quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

E.: Muito obrigada aos dois por terem vindo! Foi um prazer tê-los aqui! …

Carlos produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira no séc. XX. É um forte criador de imagens da sua obra e tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas sociais em verso…

C.D.A./ E.M.: Muito obrigados, nós!

E.: Terminamos assim mais um programa “Grandes Poetas”! Obrigada por ter estado aqui connosco. Até mais logo, vemo-nos no Jornal da Noite! Daqui Luísa Manso, isto é a INFO TV!

Luísa Ferreira, Luísa Manso e Maria Portugal (8.º E)


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