Sou a Sara

Eu fui comprada cinco horas antes do espetáculo começar. Barata, claro, pois o teatro queria gastar o mínimo dinheiro possível. Mal entrei naquela sala, fui colocada no candeeiro, que mais tarde descobri que se chamava Anastácio. Fiquei em décimo sétimo lugar a contar da esquerda, na segunda fila, ao lado da minha melhor amiga, a Laura. Eu sou a Sara, uma vela de tamanho médio, com um pavio muito branco e esticado. Tenho a pele amarelada e os meus pés fazem uma bola laranja brilhante, que as pessoas, seres que nem sempre são bons para nós, chamam de “base”.

Observei vários ensaios, um melhor que o outro, em que a senhora de cabelos ruivos bem encaracolados cantava músicas lindíssimas e o maestro, um senhor já idoso, pingava gotas de suor. O meu amigo sol ainda não tinha ido dormir, pelo que eu podia descansar. Quando o vi a ficar com sono, comecei a preocupar-me, pois um humano vestido com um fato-macaco azul escuro dirigia-se a mim com uma caixinha. A princípio, não percebi o que era, mas depois vi que eram os meus piores inimigos: os fósforos. O senhor raspou-os e pousou algo vermelho em cima de mim, que eu penso serem as fezes deles. Não sei o que os humanos sentem, mas deve ser equivalente a carregarem um carro em cima das costas.

Pouco tempo depois vi um grupo de senhoras com vestidos rosa aos folhos a entrar. Ficaram na plateia, ligeiramente para cima do meio. De seguida entraram dois casais, ambos bem vestidos e um homem que parecia ser muito importante. Depois ficou tudo muito escuro, mas não demasiado pois eu tinha aquela coisa, agora alaranjada, em cima de mim.

O maestro e os instrumentos estavam bem à vista, tapando a peça das pessoas nas primeiras filas da plateia. Teria aproveitado muito a peça, se não estivesse a transpirar em grandes quantidades. Senti-me também a diminuir de tamanho, o que dizem ser mortal. Por isso, aqui estou, a escrever o meu testamento em cima do Anastácio, com o meu suor, deixando tudo o que tenho à minha amiga Laura.

Sara Pacheco, 6º ano


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