A cidade

Então lá estava, numa gôndola, a passear por um canal numa cidade distante. Numa margem, via o lado urbano, e na outra o lado natural. À medida que avançava, via o lado urbano, mais medieval. Parecia uma viagem no tempo, ou se calhar, uma ida ao centro histórico. Tudo parecia um sonho. Do outro, via-se uma Natureza cada vez mais rica em espécies, porque o ser humano ainda não a tinha explorado. Era magnífico. Estava à procura de um abrigo, porque a linda noite invernosa já estava cerrada – as águas do rio estavam calmas, límpidas e refletiam o luar mais lindo que vira. Sem ninguém à vista senão três pescadores que pescavam o seu peixe, de resto a noite estava totalmente silenciosa. Ouviam-se as remadas do gondoleiro.

Depois de ter visto a maior parte da cidade, fui para um restaurante, na parte mais recente da cidade. O gondoleiro levou-me a um pequeno canal, onde havia uma janela, com uma pessoa lá postada. Essa pessoa, que tinha uma espécie de uniforme tricolor, perguntou-me o que eu queria e eu respondi-lhe que queria uma sopa. Passados uns instantes, estava a sopa pronta, e, eu, admirado com tal velocidade de cozedura, experimentei. Estava intragável. Os legumes não pareciam estar frescos, quer dizer, se aquilo era feito mesmo de legumes, e depois parecia que a sopa tinha realmente sido feita à pressa. Paguei ao empregado, mas nada de gorjeta.

Seguindo na direção da parte um pouco mais antiga, em cerca de três séculos, fui ter a uma esplanada, à procura de uma outra sopa, que estivesse melhor. Veio então um empregado muito bem vestido, com um colete preto, camisa branca e calças pretas, com uma toalha no braço. Perguntou-me, muito delicadamente, o que desejava. Pedi-lhe uma sopa. Demorando bastante tempo, chegou a sopa. Era uma sopa que nem chegava a metade do prato. Experimentei e até estava boa, pena que se tenha esgotado rapidamente, sem me ter satisfeito o apetite nem aquecido o estômago. Paguei ao elegante empregado uma sopa que, quando me deparei com a factura,… Nada de gorjeta, novamente.

Viajando mais um pouco, diria que tinha recuado mais uns quatro séculos. O gondoleiro levou-me a uma casa humilde feita de madeira, que em nada se parecia com um restaurante. Disse-me que esta família era de confiança e que, tinham um dom para a culinária. Confiando nas suas palavras, fui para dentro da casa. Todos os membros daquela família estranharam como uma pessoa entrara por ali dentro. Disse que vinha em paz, como um turista à cidade. Eles, porém, receosos da minha presença, ofereceram-me uma sopa. Surpreendido por tal atitude porque ainda não tinha pedido nada, experimentei-a. Era uma sopa claramente fresca, quente, em quantidades aceitáveis. Deliciei-me, finalmente com uma obra-prima. Estava maravilhosa. Agradeci à família, dei-lhes dinheiro, e eles despediram-se de mim, sorrindo.

Com o meu apetite satisfeito, voltei para a gôndola, e procurei um hotel, voltando à parte mais nova da cidade. Encontrei, aluguei um quarto e fui dormir.

Quando acordei, estava em casa. Estranhando, tal acontecimento perdurou na minha cabeça, em busca de uma explicação, durante meses. Depois, foi esquecido. Mas uma coisa é certa: consegui concluir que as melhores sopas se fazem nas mais velhas panelas.

Pedro Jorge


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