CRíTICA: Representação de AUTO DA BARCA DO INFERNO

A obra de teatro Auto da Barca do Inferno  é uma complexa alegoria dramática de Gil Vicente, representada, pela primeira vez, em 1517.  É a primeira parte da chamada trilogia das Barcas, sendo que a segunda e a terceira são, respetivamente, o Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória.

Nesta obra, várias personagens, de diferentes classes sociais, depois de falecerem, vão ter a um cais, que funciona como purgatório, onde existem duas Barcas. Chegadas a este local, as personagens são julgadas pelo diabo e algumas pelo anjo. Estes juízes, posteriormente, decidem se elas devem embarcar na Barca da Glória ou na Barca do Inferno, dependendo das suas ações.

A obra tem como objetivo moralizar a sociedade da época, assim como também tentar mudar os seus vícios.

Na representação a que assistimos, na passada quarta-feira, houve muitos aspetos que me chamaram a atenção. Em primeiro lugar, na minha opinião, foi uma excelente ideia o facto de terem feito uma especie de “introdução” antes de começarem a obra. Desta forma, relembraram aos espetadores quem foi Gil Vicente, assim como organizaram um breve dicionário teatral, onde destacaram os diversos elementos indispensáveis para a representação de um texto dramático. O mais interessante neste ponto foi que conseguiram apresentar-nos “teoria” de uma forma cómica (própria das obras de Gil Vicente), de maneira a captar a atenção do público.

No início, os atores deram a entender que aquela obra estava a ser representada como se estivéssemos no ano 1517 ( devido à grande agitação, aos conselhos que Gil Vicente ía dando aos atores que iriam representar a sua obra, entre outros) e que, portanto, nós seríamos os nobres que estaríamos na corte. Isso fez com que os espetadores entrassem mais dentro da obra, o que também foi um aspeto positivo.

A caracterização das personagens estava bem conseguida, principalmente a de Gil Vicente, que parecia uma estátua. Tiveram  a idea de colocar o anjo a deslocar-se sobre patins, o que realçou a leveza e a simplicidade próprias da personagem. Outra das personagens mais bem caracterizadas foi Joane “ O Parvo”, porque o vestuário “saloio”, a sua forma de comportar-se, de caminhar e até de falar conseguiram transmitir-nos a ideia de que Joane era uma pessoa humilde, do povo, inculta e sem maneiras.

Em relação à mudança de cenários, os atores foram capazes de trabalhar com dinamismo e rapidez, não perdendo muito tempo. No entanto, o rio e as Barcas poderiam estar mais bem caracterizados, apesar de este tipo de cenário fazer com que os materiais fossem mais polivalentes, o que facilitou a interpretação.

Penso que todos os atores conseguiram dar ênfase, nas falas e na presença em palco, própria de cada personagem. Conseguiram representar a peça com muito humor, de certa forma aumentando os cómicos de situação e de caráter. Certos vocábulos da obra original foram simplificados para melhor compreensão do público juvenil, como foi o caso da palavra “giricocins” que foi simplificada para “asnos”.

Por estas razões, recomendaria esta peça de teatro a qualquer aluno do nono ano porque, depois de a ver, ficamos a entender melhor o que Gil Vicente realmente quis transmitir com a peça. E, se pensarmos bem, a crítica social expressa no Auto da Barca do Inferno mantém-se atual.

Maria Inês Silva, 9º ano


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